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ELEITORES DE RELIGIÕES AFRO SE SENTEM INVISÍVEIS NA CAMPANHA ELEITORAL

há 23 minutos
2 min de leitura

Combate à intolerância religiosa é uma das agendas mais urgentes para o fortalecimento democrático

Foto: Erick Ty Odé


Praticantes, religiosos e estudiosos de religiões de matriz africana e afro-brasileira afirmam não se sentir representados nas campanhas eleitorais de 2026. A avaliação surge em um cenário de crescimento expressivo dessa população: segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de brasileiros que se declaram adeptos de fés afro-brasileiras triplicou entre 2010 e 2022, chegando a 1,8 milhão de pessoas.

Apesar do avanço, o eleitorado de matriz afro continua distante do centro das disputas políticas — ao contrário dos eleitores cristãos, tradicionalmente alvo de forte mobilização em período eleitoral.

Para a advogada e umbandista Lívia dos Santos, a falta de interesse das campanhas e a baixa representatividade na política refletem, sobretudo, preconceito. "É muito difícil a gente, que é de religião de matriz africana, se ver representado pelos políticos", afirma. Segundo ela, o problema está enraizado na intolerância religiosa: "A gente tá falando, em uma última análise, de uma sociedade que não se permite conhecer essas religiões, justamente por todo o histórico de marginalização, criminalização dos povos que sempre cultuaram o orixá."


Uma pauta de democracia

Para o segmento, o combate à intolerância religiosa é uma das agendas mais urgentes para o fortalecimento democrático. O Artigo 208 do Código Penal protege o sentimento e a liberdade religiosa, prevendo pena de um a três anos para quem comete discriminação religiosa.

Os adeptos de religiões de matriz africana representam uma parcela menor da população se comparados a católicos e evangélicos, que juntos somam cerca de 80% dos brasileiros. Ainda assim, o menor número não justifica que esse eleitorado seja deixado de lado, defende o pai de santo e pesquisador do Grupo de Pesquisas sobre Povos de Terreiro da Universidade Federal Fluminense (UFF), Leonardo Vieira. "Há nichos da política que ainda concebem os povos de terreiro como inferiores", diz.


Organização política própria

Segundo Vieira, é equivocada a ideia de que os povos de terreiro não sabem se organizar politicamente — pelo contrário, a política já faz parte da própria existência dessas comunidades. "Essa organização política começa dentro dos terreiros, nas suas relações comunitárias e coletivas de organização, economia, saúde, educação e tecnologia, e é uma forma de fazer política diferente", explica.

Ainda de acordo com o pesquisador, os candidatos que pertencem à matriz afro ou que se aproximam do segmento são, em geral, os que conseguem conquistar o apoio desses eleitores. Enquanto grandes eventos religiosos costumam ser explorados por candidatos como palanque de campanha, mobilizações semelhantes envolvendo os povos de terreiro esbarram em um obstáculo importante: o risco real de sofrer violência ao se assumir publicamente como praticante de religiões afro, resultado da intolerância religiosa ainda presente no país.


Denúncias registradas

Os números do Disque Direitos Humanos (Disque 100) confirmam a gravidade do problema. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o serviço recebeu 2.774 denúncias de intolerância religiosa.

O canal, mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, com atendimento gratuito e imediato. As denúncias são registradas e analisadas pela equipe do Disque 100 e encaminhadas aos órgãos competentes. Em casos de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.

 
 
 

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